Estudo propõe cooperação internacional em MS para combater crime

Um estudo encomendado pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública propõe uma mudança no combate ao crime organizado. O documento defende que o Estado concentre esforços na asfixia financeira das facções, na integração entre órgãos de segurança e no fortalecimento da cooperação policial internacional em fronteiras como a de Mato Grosso do Sul com Paraguai e Bolívia.
A publicação Criminalidade Organizada: Diagnóstico e Políticas Públicas e Legislativas foi elaborada por pesquisadores da Universidade Federal Fluminense (UFF), do Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos (GENI) e especialistas convidados. O diagnóstico presente nos dez capítulos aponta que organizações como PCC e Comando Vermelho atuam como redes empresariais transnacionais, com forte capacidade de lavagem de dinheiro e exploração de fragilidades institucionais.
O estudo afirma que o modelo tradicional de enfrentamento, baseado em apreensões de drogas e prisões de lideranças, se tornou insuficiente. A recomendação é desenvolver mecanismos para atingir a estrutura econômica das organizações, seus fluxos financeiros e a capacidade de reinvestir recursos ilícitos na economia formal. A orientação é seguir o dinheiro, não apenas a droga.
Na visão dos especialistas, a fronteira deixa de ser tratada apenas como corredor de drogas e armas. Ela é compreendida como espaço estratégico para circulação de capitais ilícitos, lavagem de dinheiro e cooperação internacional. A publicação ressalta que regiões de fronteira concentram riscos pela facilidade de movimentação de recursos do crime na economia formal.
O agente da Polícia Federal Yuri Corrêa Araújo, Mestre em Segurança Pública, propõe a criação de seis novos CICOPIs (Centros Integrados de Cooperação Policial Internacional), um deles em Campo Grande. Ele reconhece que os principais gargalos estão em Ponta Porã e Corumbá, mas defende que a capital tem estrutura para sediar equipes permanentes de policiais brasileiros e estrangeiros.
A proposta está alinhada com o governo, que reforça a cooperação internacional no combate ao crime organizado, sem tratá-lo como terrorismo. Os especialistas avaliam que o modelo atual de cooperação é lento diante da velocidade das facções, que atravessam fronteiras e reorganizam cadeias logísticas em horas.
Em um dos capítulos sobre o sistema antilavagem de dinheiro, os pesquisadores afirmam que o "asfixiamento financeiro" é o ponto fraco das organizações. Eles defendem a integração entre Polícia Federal, Receita Federal, Coaf e outros órgãos para rastrear recursos ilícitos. A proposta parte do princípio de que as facções encontram mais dificuldades quando têm ativos bloqueados e mecanismos de lavagem desmontados.
O estudo destaca as Forças Integradas de Combate ao Crime Organizado (FICCOs) como experiências promissoras. Mato Grosso do Sul já conta com uma unidade desse modelo, apontado como exemplo de integração necessária. A publicação defende uma estratégia baseada na descapitalização das organizações, na cooperação internacional e na presença coordenada do Estado nas fronteiras.
Nesse cenário, Mato Grosso do Sul passa a ocupar posição estratégica na política nacional de combate ao crime organizado, como território para produção de inteligência e rastreamento de fluxos financeiros. O governo federal assume papel central, tentando evitar ações que afetem a soberania do país sob pretexto de combate ao narcotráfico.


